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22 Setembro 2008

Caleidoscópio

(Nota do editor: Atendendo à pedidos, eu voltei! Espero que entendam que estou fora de forma. De qualquer sorte, aproveitem o conto.)

E ele estava lá novamente, à espera da sua visita. Por tempos tornou-se a única alegria da sua monótona vida. As janelas eram sempre aquelas velhas janelas, as flores que traziam murchavam e caíam sob seus olhos. A Luz do Sol que penetrava pelo basculante do banheiro jogava no chão um caleidoscópio muito bonito de se ver, mas ele só via quando deixavam a porta aberta.

Mas voltemos à alegria da doce visita, e à amargura da impossibilidade. Jamais poderia dar-lhe o carinho que merecia, ser o homem viril por quem ela talvez ansiasse. A noite, as lágrimas apenas caíam. Era um homem incapaz. Incapaz de expressar o amor que tanto sentia por aquela moça que o visitava todas as semanas. Era incapaz até mesmo de tomar um banho sozinho. Na verdade incapaz – ou covarde – até mesmo para retirar a própria vida. Mas era incapaz porque ainda havia um motivo. A moça de olhos azuis. Olhos mais bonitos ainda do que o caleidoscópio proporcionado pelo Sol e o basculante.


Mas a bela visita não veio. “Talvez amanhã, ele pensou”. Mas o amanhã veio e ela ainda não chegava. “Estranho, ela nunca se atrasa”. E a semana passou, e o mês também passou, lentamente. Numa manhã de sexta-feira, escutou um murmurar pelos corredores. Perguntou a uma das enfermeiras do hospital sobre a tal moça – “porque não havia perguntado antes?”.

- Ah, a filha da Maria? Ela sempre andava por aqui a visitar os doentes. Era uma boa moça!
-Era? Como assim?
- Você não sabe meu filho? Uma bala perdida atravessou a janela enquanto ela dormia... Foi fatal.

(...)

A noite vinha, mas o sono não. As lágrimas ainda corriam soltas pelo seu rosto. Agora não pelos mesmos motivos de antes, desta vez não era um simples lamento de um enfermo em uma cama de hospital. Desta vez era o lamento de um coração partido, um coração.
De repente, o silêncio. Os outros doentes não mais gemiam. “O que está acontecendo?” pensou assustado.

-“ Estava a me procurar?” Sibila um manto negro no canto do quarto.
Estava gelado, a temperatura havia baixado abruptamente, mas ele pensava que era apenas o pavor daquela visão assombrosa no canto entre duas paredes que arrepiava sua espinha. O ser era encurvado, e estava envolto a um manto escuro e espesso. Parecia ser bem velho, pelas marcas que trazia.
- O q-que q-ueres? Balbuciou o rapaz.
- Prepara-te, pois hoje jogaremos como deuses! Preste atenção mortal, pois poderás ter o que mais desejas! Basta jogar com atenção.

(continua...)

imagem: Vivianart

05 Julho 2008

A esperança de um velho

85 anos, Alzheimer.

Naquela época em que os esportes ainda eram possíveis, quando ele era jovem e forte, quando não se pensava na morte, quando as garotas suspiravam pelos músculos, quando tomar um simples banho sozinho era coisa rotineira.

Hoje, está sentado aqui neste asilo imundo, cercado de doença, velhice e morte. Ele jamais aceitou aquilo, jamais imaginara que os filhos que criara com tanto carinho o internariam naquele lugar insólito. Sozinho.

Agora eles eram profissionais qualificados, com suas próprias famílias e sonhos. Ele era apenas um estorvo, uma obrigação. Eles não tinham mais tempo pra um velho doente que já não se lembrava de algumas coisas.

Já faziam mais de 2 meses que não recebia nenhuma visita, exceto do enfermeiro mal encarado que trazia seus remédios diariamente. Sua esposa morreu fazem 10 anos... 10 anos! Como o tempo passou rápido. Mas agora ele quase nem se lembra disso... a doença já o consumiu bastante. A memória já não é a mesma de antes.

Que tolice foi pensar que viveria para sempre! Agora as tardes são modorrentas e demoram pra passar. Ele fica ali, na janela, com o olhar perdido... Esperando a porta se abrir, esperando aquele abraço que nunca veio... aquele amor que já não mais existia. Os funcionários pensam que é apenas um devaneio de um velho louco. Mas eu sabia que não. Eu tinha certeza que não. O velho procurava ainda manter um fiapo de esperança... mas a esperança já havia adquirido muitos significados para ele nestes anos todos, e ele já lembrou e esqueceu de vários deles. Nenhum trouxe o conforto de um afago que nunca veio. A memória o traiu nas lembranças, mas o coração o recorda todos os dias deste amor.

- Não seria a morte melhor saída? Pensa aflito.

- Talvez meu velho, talvez... Responde seu orgulho de pai destruído.

30 Junho 2008

Bolinhos de queijo

Eram 4 da tarde, e por algum milagre divino, Dr. Nilmar, seu patrão, liberou-a mais cedo do trabalho, afinal de contas, já são 7 anos como fiel secretária, ela merecia aquela pequena folga de 2 horas a menos no trabalho. Luiza estava feliz, tinha um casamento sólido de 4 anos, e um emprego estável, já pensava até mesmo em engravidar. Se sentia preparada para isso. Enquanto caminhava do ponto de ônibus para a sua casa, pensava alto:

– Humm, hoje vou aproveitar e fazer aqueles bolinhos de queijo que o Felipe tanto gosta!

Entrando de súbito na casa, caminhou silenciosamente entre os móveis, deixou sua bolsa em cima do sofá e foi se trocar no quarto do casal. No meio do corredor, alguns barulhos abafados... “Estranho” pensou. Começou então a andar mais silenciosamente, como um gato. Seu coração palpitava forte... “Será um ladrão?” pensava apreensiva. A porta estava entreaberta, e ao colocar sua cabeça na fresta, viu uma cena a qual jamais imaginara antes. Não assim, não desta forma. Seu marido, Felipe, na cama, com a própria empregada de casa, e na própria cama. Aquela moça do interior, que ela acolheu e deu emprego na sua própria casa. E agora isso. Que tragédia.

Sem derramar uma lágrima e sem fazer barulho algum, ela sai de casa e volta pra rua... aguarda silenciosamente por duas horas, em uma praça próxima de casa, perdida em pensamentos. Volta então pro doce lar, no horário habitual, mais ou menos às 6 horas da tarde. A “moça do interior”, Camila, já tinha ido embora. O amado esposo estava no sofá tomando um pouco de café, olha para ela e solta um beijo amoroso – ou cínico, agora já não sabia mais. Silêncio. Repete então todo o ritual que a acompanhava todos os dias desde sempre: móveis, bolsa, trocar roupas... cozinha. Agora o armário – assadeira – manteiga - untar a assadeira. Bolinhos de queijo empacotados... ligar o forno. Uma pausa. Bolinhos de queijo no forno, cheirinho bom. Um prato - caminhar até a sala.

– ‘Brigado mor, eu adoro esses bolinhos.

– Eu sei. Coma bastante

Momentos depois, um grito, uma queda, e finalmente uma lágrima, mas apenas uma. O veneno de rato que ela havia salpicado nos bolinhos fizeram seu trabalho. Agora estava consumada a vingança. Não havia mais a traição, afinal de contas, o arrependimento costuma ser um companheiro muito fiel.

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